Trabalhando Remoto para o Vale do Silício

Tempo de leitura: 8 minutos

Fala galera! Meu nome é Ricardo Nacif e sou desenvolvedor web há 6 anos. Estou aqui para contar um pouco da minha história trabalhando remoto para empresas do Vale do Silício. Espero que minha experiência possa ajudar outros devs que estão tentando uma oportunidade de trabalho remoto por lá.

Início de Tudo

Durante o meu curso de Sistemas de Informação em Belo Horizonte, fiz estagio e trabalhei para algumas startups e agências de publicidade como desenvolvedor web. Comecei a pegar alguns freelances internacionais pelo site freelancer.com. Há muitos freelancers nesse site, e reputação é tudo, então comecei pegando projetos bem pequenos e que pagavam mal apenas para ganhar reviews.

Meu primeiro projeto lá foi arrumar um código Javascript tosco, gastei 2 horas e ganhei em torno de 39.242.037.120 Rupias (moeda usada na Índia), o que na época era equivalente a R$18 (risos). Consegui reviews e comecei a pegar projetos melhores e maiores, e fiz projetos para o Canadá, África do Sul, Austrália e até Zimbabué.

Assim que me graduei, fui trabalhar em uma empresa americana com sede no Brasil chamada Avenue Code. Esse foi meu primeiro passo para o Vale, pois a AC prestava serviço de desenvolvimento para diversas empresas nos EUA, e eu cai na Williams-Sonoma, um grupo de marcas com um dos maiores e-commerces do mundo, com sede em San Francisco.

Experiencia Enterprise

A Williams-Sonoma foi minha primeira experiência em uma Enterprise, e lá trabalhava como Automation QA (Ruby, Cucumber, Selenium, Rspec…). Minha equipe era toda localizada em San Francisco e eu era o único remoto aqui do Brasil.

Para quem veio de um ambiente de startups, foi um choque bem grande e uma excelente oportunidade de conhecer como funciona o desenvolvimento de produtos em uma Enterprise. Comparado com startups, tem diversas vantagens e desvantagens que vocês já devem saber. Vários ambientes de QA, milhares de builds e estágios que o código passa antes de ir para produção. Comitou hoje, código vai para produção daqui a 3 meses haha.

Tive uma oportunidade de ficar trabalhando um mês in-loco. O escritório era perto do Pier 39, em San Francisco. Nem preciso falar da estrutura do escritório neh? Nessa mesma viagem para lá, tinha um amigo envolvido na cena de startups no Vale e fui conhecer diversas empresas, incubadoras e empreendedores de diversas nacionalidades.

Duas coisas me chocaram de primeira na cultura la: Networking e transparência. Todas as pessoas estão abertas a te conhecer, te ouvir, compartilhar experiências, te conectar com outras pessoas relacionadas. Você conhece um founder tomando café e ele vai te falar números exatos de faturamento e growth, coisa que empresários aqui no Brasil protegem até (e principalmente) dos próprios funcionários.

Networking é Tudo no Vale do Silício

Aproveitei a estadia em San Francisco para me candidatar para algumas outras vagas. Fiz um ou outro processo seletivo, mas a sorte (leia-se encontro da experiência com a oportunidade) bateu na porta de uma maneira inusitada.

Em um sábado de sol aluguei um caminhão, fui pedalar a Golden Gate Bridge com um grupo de founders brasileiros que estavam lá sendo acelerados pela 500 Startups. Nesse passeio, conheci um brasileiro que trabalhava para a Sendgrid e era bem influente no Vale do Silício. A noite, vi que ele tinha postado uma vaga para desenvolvedor Rails numa startup que estava saindo da 500 Startups chamada Vango e havia levantado Series A.

Networking e reputação no Vale do Silício são extremamente importantes. Pedi a ele indicação (que contou MUITOS pontos) e na mesma viagem fiz o processo seletivo. Assim quando cheguei no Brasil tive a notícia que tinha sido contratado.

O processo seletivo foi bem tranquilo, fiz 2 etapas de código, uma de white board e conversei com todos os membros da empresa (que na época eram apenas 5). Comecei a trabalhar para a empresa remotamente e foi decidido que eu viajaria a cada 3 meses em média para trabalhar in-loco e participar dos offsites (viagens para planejamento e team bonding).

vale do silício

Ambiente de Startup

Tive uma excelente primeira experiência no escritório da Vango. A equipe me recebeu super bem, e a empresa já havia crescido para 12 pessoas. O ritmo como qualquer startup é bem acelerado, mas há muito espaço para conversas informais e entretenimento em equipe. O escritório ficava no Mission em um galpão com mais 4 startups. A infra era excelente. As startups que levantam grana por lá geralmente não tem muita restrição de como gastar o dinheiro.

Então ao mesmo tempo que estávamos focados em desenvolver o produto e ter growth contratando serviços caros sem se preocupar muito com o custo, haviam curtas viagens em equipe para mansões em lugares como Malibu. Nada a reclamar 😀

Comparando o ambiente de startups brasileiras com as do Vale do Silício, alguns pontos me chamaram bastante atenção:

1- Lá você tem todo um ecossistema gigantesco em volta que torna tudo mais fácil. Há uma gigantesca oferta de capital dos VCs, uma grande quantidade de eventos para propagação de conhecimento e networking, muito menos burocracia em qualquer processo legal e até pontos como a proximidade física entre empresas fazem a diferença.

Uma vez fomos contratar o serviço de Data Platform da Keen.io. Após 2 trocas de email, descobrimos que a sede deles era do lado da nossa. No outro dia, um representante de lá foi até nosso escritório para apresentar a solução e já nos ajudou a entregar a primeira integração. Foda.

2- Como nos EUA a relação de trabalho é muito mais direta, eles demitem com uma facilidade que até assusta um pouco. Vi gente entrando, ficando 1 ou 2 meses, e de repente eu recebia um comunicado tipo “We had to let Joe leave”.

Não tem essa de tempo de experiência, esperar para ver se adapta, dar muitas chances. Lá o pessoal é bem franco. Se você não ta fazendo o trabalho esperado, vão reunir com você e conversar para tentar alinhar. Mas se nada mudar, abraços.

3- Confiança. Esse foi um ponto que me impressionou bastante nesses anos trabalhando remoto. Aqui no Brasil, você não confia na pessoa, até que se prove o contrário. Lá nos EUA (e em outras partes do mundo claro), você confia na pessoa, até que se prove o contrário.

Essa forma de relação facilita inúmeras coisas, desde fechar negócios mais rapidamente, a fazer com que você profissional se sinta responsável e apto para tomar decisões inteligentes sem ter que ficar perguntando alguém superior. Vindo de Minas Gerais, um estado nacionalmente conhecido como por ter o povo desconfiado (e lento para fechar negócios), a praticidade e diretividade (tive que pesquisar essa palavra em PT haha) dos americanos me ensinou muito nesse sentido.

Trabalhando Remoto e Oportunidades

Como eu já havia trabalhado remoto anteriormente para empresas brasileiras, funcionava muito bem para mim. Possuo um silencioso escritório no meu apartamento, e tudo o que eu preciso é de uma confortável cadeira ergométrica (essencial), monitores, uma boa internet e cafe.

Minha jornada quando estava no Brasil geralmente era das 14:00 às 22:00. Comunicação era feita 99% via Slack e as reuniões via Zoom (melhor solução de vídeo e screen sharing do mercado. Pode confiar, testei varias). Tive um feedback vindo do CTO falando que parecia que eu estava no escritório o tempo inteiro por estar sempre interagindo no Slack. Fazer-se presente é essencial para ganhar confiança.

Ressalto também a importância de ligar a webcam nas reuniões. Te faz parecer mais próximo e ajuda nas relações pessoais, e você não quer ter seu rosto esquecido pelo resto da equipe.

Hoje em dia há muitas vagas para trabalhar remoto como desenvolvedor em todas as linguagens e áreas de TI. E brasileiros de modo geral são muito bem vistos pelo mercado americano.

Alguns requisitos importantes para te ajudar a conseguir sua primeira oportunidade lá: tenha uns 2 ou 3 anos de experiência profissional com alguma tecnologia específica, tenha alguma contribuição no seu Github para projetos open source, inglês afiado e um onepage resume que destaque não apenas nome de empresas e funções, mas importantes contribuições específicas que você realizou em cada projeto.

Se tiver alguma indicação de alguém de dentro da empresa, melhor ainda. Algumas startups vão exigir no processo seletivo que você resolva desafios mais real world, outras vão te pedir aqueles desafios de binary tree no whiteboard que exige conhecimento mais acadêmico do que prático (acho péssimo, mas…).

Sempre que aplicar para alguma vaga, procure no Glassdoor os depoimentos dos processos seletivos da empresa em questão e se prepare de acordo. E não se esqueça de postar sua experiência no processo seletivo lá também depois.

Bom, esse foi o relato da minha experiência. Espero ter ajudado e disponibilizo aqui minhas redes caso alguem queira entrar em contato. Valeu!

Ricardo Nacif

github.com/ricardonacif

www.linkedin.com/in/ricardonacif

 

2 Comentários

  1. Caique de Souza Andrade

    Ótimo feedback sobre sua jornada ! Continue assim inspirando as pessoas com suas experiências. Meu sonho é trabalhar remoto ou em outro país. É motivador ver Brasileiros cada dia mais entrando no mercado internacional.

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  2. Tatiana Silveira

    Gostaria de saber se precisa de visto de trabalho para trabalhar remotamente do Brasil?

    Responder

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